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Prosa Poética, do programa Tarde Ponto Com, com Mary Arantes: 'Morte Morrida'

Por Mary Arantes, 11/02/2020 às 13:02
atualizado em: 11/02/2020 às 13:06

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Vocês já perceberam como nos velórios de hoje, as pessoas estão mais contidas? Parecem aceitar a morte com mais naturalidade do que antigamente. O espaço é recheado pelo silêncio e o velório acaba ficando meio boro cocho. 

Lembro-me dos velórios na roça, em que viúvas inconformadas choravam alto. A hora de fechar o caixão então, era um desespero só, filhos gritavam, mulher desmaiava, apareciam meninos de outras mulheres, era um Deus nos acuda. E as carpideiras gente, aquelas mulheres que eram pagas para chorar nos velórios, nem dá pra acreditar que existiram.

Tudo hoje tem seu modo de ser, salas de velório chiques, onde se escolhe até o cardápio a ser servido, um conforto danado, mas eu bem que gostava do tempo em que os velórios eram nas casas das pessoas. Adoecer em casa e por lá ficar até morrer de velhinho. Hoje tudo é terceirizado, o velho e a morte!

Lembra quando a pessoa batia as botas de repente? Era um tal de esperar os parentes que moravam longe chegar pra despedirem da pessoa. Atrasava-se o enterro, embalsamava o defunto. Hoje não se espera mais nada, morre, crema e vira cinza rapidinho!

Mas eis que no meio da tarde de ontem, me chega aos ouvidos um relato de um velório que aconteceu numa cidadezinha perto de BH, que contradiz todos os parágrafos acima. Eis que neste velório tinham duas viúvas.  Cada uma a seu modo disputava a posição de mulher do falecido. O morto no meio, era a linha divisória do campo, e pra cada lado, os times em disputa. Torcidas eufóricas, uma querendo estapear a outra. Uma dizendo que quem pagou aquilo tudo ali foi ela. O moço morto coitado, ali quietinho, mudo de tanto medo, continuou fazendo sucesso, era o centro das atenções.

A avó, na noite anterior à morte, teve um mal pressentimento, pois o galo tinha cantado mais cedo e, quando ela, velhinha, adentrou no recinto do velório, foi uma comoção. Disse coisas como, “eu é que tinha que ter ido em seu lugar meu neto”, “ mandei te chamar pra você ir tomar um café comigo e você preferiu ir se encontrar com Deus”... e todo estádio transbordou, veio à tona de tanto chorar, se esquecendo que eram de times rivais.

O moço morreu feito um passarinho, caiu e tum, morte fulminante!

E quando um desavisado perguntou pra um bêbado presente no velório, de que é mesmo que o rapaz tinha morrido, o bêbado respondeu: “deve ter sido de pedrada, pois todo mundo tá falando que ele morreu feito um passarinho”!

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