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Chamada a cobrar

Do escritor e jornalista Fabrício Carpinejar

21/08/2019 às 11:40
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Eu recebi uma chamada a cobrar. Não assimilei a confusão emocional na hora: veio uma palpitação junto. Fazia muito tempo que ninguém me ligava assim, que não escutava a gravação feminina cavernosa. "Diga seu nome e a cidade de onde está falando. Para aceitá-la, continue na linha após a identificação".

Por mais que conhecesse cada palavra, não diminuiu o suspense o chamado, não reduziu em nada o coração troteado, o susto do ouvido, o estado exultante de vigília: Quem será? O que aconteceu? Lembrei, pouco a pouco, do que significava uma chamada a cobrar, do ataque de nervos toda vez que ela aparecia levantando o gancho do aparelho.

Antes, entenda que venho de uma época analógica, em que não existiam celulares. Conversar ao telefone custava caro, e usávamos fichas para dar recados em orelhões. (...) O detalhe é que a chamada a cobrar costumava ser feita em último caso, como urgência urgentíssima.

Quando o telefone tocava de madrugada e surgia a advertência para autorizar a linha, a família gelava. Só podia ser tragédia. (...) Se um filho estivesse na rua, então, já se morria de enfarte durante a pausa. Gaguejávamos, atropelávamos a voz do outro lado com perguntas, não permitindo que ela se identificasse. A chamada a cobrar encarnava um código de agouro. Uma invocação do mal. Um anúncio de encrenca. Uma intimação para tirar o pijama e perder a tranquilidade do sono. Logo ao desligar, o destino seria o hospital ou a delegacia. Penávamos de ansiedade. Dificilmente alguém recusava aquele interurbano. (...) Contávamos com seis segundos para aceitar ou não o telefonema.

Trinta anos se passaram nos breves segundos de ontem, ao atender o celular na rua e empalidecer o rosto com o eco do passado. Até descobrir que se tratava de um engano, simplesmente tranquei a respiração e desapareci dentro de mim.

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