José Lino Souza Barros

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A romântica

19/09/2020 às 07:24
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No décimo quinto dia do casamento, Laura estranhou:
— O que é que há contigo?
O marido se espanta:
— Comigo? Nada, por quê?
E ela, num suspiro:
— Está com uma cara!
Muito sensível e perspicaz, Laura vinha notando que, a partir do quarto ou quinto dia da lua de mel, Joãozinho deixara de ser o esposo maravilhado e sôfrego. Seus beijos iniciais eram de uma voracidade que quase a sufocavam.
E, de repente, Laura começou a sentir pequenas mudanças e uma série de sintomas desagradáveis. Os beijos não tinham nem a mesma intensidade, nem a mesma duração. Ele passou a bocejar muito, na sua frente, sem o menor escrúpulo. Laura deixou passar uma, duas, três vezes. Por fim, não se conteve:
— lh, meu filho!
— O quê?
— Tão feio isso que você faz!
Ele espanta:
— Mas eu não fiz nada!
— Fez, sim! Bocejou na minha frente!
— Ué!
Ela, sentida, desencantada, insistiu:
— Considero isso uma falta de poesia tão grande!

Eterna lua de mel

Era filha única, criada com muito mimo. Não podia ter um resfriado bobo, uma coriza trivial, que a família caía no pânico mais desenfreado. Fisicamente frágil, sem saúde, Laura pouco sabia da vida, dos homens e de suas paixões. Tinha ingenuidades alarmantes, infantilidades de tal ordem que um exagerado cochichou, certa vez:
— Mas essa menina é uma boba!
Nem tanto, nem tão pouco. Fora educada como numa redoma, sem contato nenhum com as coisas feias e turvas da vida. E, além do mais, era de um romantismo frenético. Uma estrela mais clara e mais solitária a fazia chorar; ouvindo uma música romântica, desfalecia. Uma senhora da vizinhança, desbocada, tinha a mania de dizer: "Histerismos!" Mas a família a tratava como se ela fosse um anjo absoluto. Se Laura chorava nos filmes tristes, era um deslumbramento unânime de todos os parentes. E a própria menina começou a ter a vaidade dessa lágrima fácil e tão celebrada. Desde os 12 anos sonhava com um amor eterno. Quando via um marido bocejando na frente da mulher, e vice-versa, achava aquilo uma coisa inimaginável. Jurava, então, para si mesma, que jamais cairia nesta vulgaridade conjugal. Calculava que amaria seu esposo; fosse qual fosse, da mesma maneira, sempre. Uma colega, assanhadíssima fez o comentário:
— Ninguém pode gostar sempre da mesma pessoa! Duvido!
Laura teve uma revolta como se essa opinião encerrasse uma obscenidade. Ergueu o rosto, triste e altiva:
— Pois eu sou assim.

Desilusão

Casou-se com Joãozinho na convicção de que o amaria sempre como no primeiro dia. Mas no quarto ou quinto dia da lua de mel, o viu bocejando. Até então, ela não fizera nada parecido, preservando a poesia nas maneiras, palavras e roupas. Fazia tudo o que era humanamente possível para que ele a considerasse, sempre, uma "grande esposa". Enquanto ela agia assim, que fazia o marido? Acusava os primeiros sintomas de tédio. Ela, com o máximo de discrição, gemia:
— Eu acho que eu te dou sono. Você boceja tanto!
Ele explicava, em meio de um novo e espetacular bocejo:
— É o estômago cheio. Comi demais!
E como, ao longo dos dias, ele continuasse bocejando e assumindo atitudes cada vez mais prosaicas, ela se deixou tomar de melancolia:
— Só te digo uma coisa: antes morrer, que ser traída!
Foi esta uma atitude tão extemporânea, tão sem lógica, que ele fez o natural espanto:
— Sossega, leoa!
Mas notou que os olhos da menina estavam marejados. Foi beijá-la na face. Ela, sem comentário, passando as costas da mão nos olhos, observou:
— Não foi na boca! Foi na face!" Ele, preocupado com futebol, cinema e amigos, não deu maior importância ao episódio.

Novos amores

Outros sintomas, cada vez mais típicos, de desinteresse, foram aparecendo. Laura achava a maternidade, textualmente, "uma coisa sublime"; casara-se na presunção, no desejo de, pelo menos, um filho. E quando, já na prévia adoração da criança futura, falou nisso, Joãozinho foi categórico:
— Filho é um abacaxi!
Laura gelou, por vários motivos, inclusive pela gíria abominável. Parecia-lhe uma profanação um termo tão ordinário. Podia ter protestado, mas a sua revolta se esvaía, geralmente, em suspiros, melancolias e cólicas de fígado. Fez uma nova insinuação em forma de pergunta:
— Se eu morresse, você ficaria triste?
Ele foi grosseiro:
— Ora, Laura, vai dormir que teu mal é sono! Que conversa!
Ele, porém, foi para o quarto, na frente. Lá, de pijama, deitou-se na cama e concentrou-se no jornal. Daí a pouco, a mulher foi deitar-se a seu lado; e suspirou:
— Não tenho nenhum medo da morte. Nenhum, nenhum.
Joãozinho perdeu, de todo, a paciência:
— Ora bolas! Vê se não chateia!
A expressão "chateia" doeu na moça como uma punhalada. Ela concluiu, com impressionante facilidade. “Se ele diz isso é porque não me ama, porque deixou de me amar”. E, por coincidência ou não, o fato é que esta conversa foi o ponto de partida para uma transformação nas suas vidas. Sensível, imaginativa, Laura dizia a si mesma, dias depois: "Ele tem outra."

A outra

Então, dia a dia, a jovem esposa não podia ver o marido, que não falava em morrer. Ele arranjara um bico na polícia e andava com um revólver enorme. Todas as noites, Laura olhava aquela arma numa espécie de fascinação. E, agora, era mais direta:
— Olha o que eu te avisei, Joãozinho: se você me trair, eu me mato, Joãozinho!
A princípio, ele se deixava impressionar. Mas a ameaça da esposa, repetida sem parar, deixou de comovê-lo. E mesmo seus amigos de sinuca, foram categóricos:
— É conversa fiada! Mentira!
Então, ele não ligou mais para os gemidos da mulher, e nem observou que ela emagrecia de uma maneira assustadora, que estava cada vez mais frágil e com os pulsos finos e transparentes. Uma noite, Joãozinho chegou em casa com um mau humor sinistro. Tivera um bate-boca com uma garota da boate, que era uma de seus grandes rabichos pós-matrimoniais. A título de distração, resolveu limpar o revólver. A mulher, ao lado, com seu ar de mártir, olhava, ora o marido, ora o revólver. Até que começou a bater na mesma tecla: que, um dia, se matava; que se atirava debaixo de um ônibus. Ele, pensando na outra, explodiu: — Ótimo!
E ela:
— Eu sei que é ótimo, sim! Sei que você deseja a minha morte! Mas não faz mal. Deus é grande!
Então, o rapaz, que acabara de limpar a arma e de recolocar as balas no tambor, teve uma atitude de cinismo, que não era muito do seu temperamento. Virou-se para Laura e ofereceu o revólver:
— Querendo usar, não faça cerimônia! O prazer é todo meu!
A mulher recuou, num súbito medo daquela arma tão próxima e terrível. Viu-o aproximar-se, com a mão estendida. Encostada na parede, ainda balbuciou:
— Não brinque, João! Olha que Deus castiga!
Mas ele, na sua alegre crueldade, insistiu:
— Toma! Segura!
Em câmera lenta, ela foi estendendo a mão, até que apanhou a arma. E a olhava, com surpresa, fascinada. Parecia que jamais vira um revólver. O marido, diante dela, esperava e achava graça; dizia:
— É só puxar o gatilho. E pronto!
Como ela continuasse atônita, no pavor histérico da arma, berrou, afinal: — Ora, não amola! Vê se não chateia!
Foi talvez a expressão "chateia" que a decidiu. Puxou o gatilho seis vezes. O marido atingido uma vez, duas no peito, quis correr, fugir. Mas lhe faltaram as forças; caiu de joelhos e assim, de joelhos, foi varado por mais duas ou três balas. Morreu logo e seu último pensamento foi para a garota da boate.


SONOPLASTIA: RONALD ARAÚJO

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