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Prosa Poética, por Mary Arantes, no Tarde Ponto Com: 'O escuro de cada um'

Por Itatiaia, 16/05/2019 às 16:42
atualizado em: 16/05/2019 às 16:50

Texto:

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Nasci numa casa que não tinha luz, mas que a seu modo, era toda iluminada.

Lamparinas com pavio embebido no azeite de mamona, piscavam na escuridão. 

Fico imaginando como foi viver sem luz, até meus 12 anos, mas tenho certeza que não foi assim tão difícil assim, afinal a gente não sente falta do que não tem, não é mesmo?

Só sei que hoje, aqui na cidade, se acontece de não termos luz por algumas horas, enlouquecemos. Vou para um lugar  que imagino seguro, um sofá, a cama, como se o mundo fosse acabar.  TV, internet, geladeira, nada funciona, não posso ler, não posso banhar pois a água está fria. Me sinto inútil, com uma vela e um fósforo na cabeceira da cama, como se dali viesse um milagre...

Imagina se lá na roça a gente ia parar a vida, porque não tinha luz? Imagina em quantos recantos desse Brasil, as pessoas ainda não têm direito à luz?!

E na verdade existe uma imensa riqueza na escuridão, era na luz do luar que brincávamos de roda, espiávamos o céu estrelado, contávamos estrelas e passávamos pelo medo de nascer verruga na ponta do dedo. Ver os vaga lumes passeando, com suas bundinhas acesas, era algo mágico. 

Ronaldo Marques, mestre em literatura, fez um trabalho no Vale do Jequitinhonha com os contadores de prosa da região, e percebeu que com a chegada da luz, chegou também a realidade, nua e crua. O mundo da fantasia tinha ficado mais triste, pois é na penumbra que vislumbramos esses seres inexistentes, é nele que a Mula Sem Cabeça, o Romãozinho e outros personagens, ganham formas reais. 

E se não existia luz, também não existia geladeira. Você consegue imaginar a vida sem geladeira? Só sei que era assim que a gente vivia e o que se fazia acabava na mesma hora. Também éramos oito, comíamos tudo de uma vezada só. Não existia esse negócio de guardar pra mais tarde e muito menos o tal do tupperware.

As carnes de sol, secavam ao sabor do sereno ou adormeciam em latas com banha de porco, que nada mais é do que um processo de conservação.

Essa escuridão também me fez pensar no breu que é pra quem já nasce cego. É como se a lamparina da casa deles, estivesse sempre apagada... E eles não vivem? Não vestem? Não passeiam?  Não casam? Não arrumam casas e gavetas?

Fico imaginando a lindeza da alma dessas pessoas que vieram ao mundo com outro tipo de luz, pessoas cujas “janelas da alma”, são mais escancaradas que as nossas...

 “A pessoa é para o que nasce”, é nome de um filme lindo, sobre a vida de três irmãs cegas, de Campina Grande. Seu para-casa de hoje é assití-lo. Aproveite e feche os olhos, por um minuto, e se imagine sem luz, no lugar do outro.

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