José Lino Souza Barros

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Gagá

27/07/2019 às 11:27
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Ouça a crônica de Nelson Rodrigues na voz de José Lino Souza Barros!

Era jeitosa de rosto e de corpo. Já no seu primeiro dia de repartição, foi advertida pelas companheiras:
— Abre o olho!
— Por quê?
Em meio de risinhos e cochichos, continuaram a maledicência:
— O seu Maciel não é sopa!
Ingênua por natureza e por educação, alma sem malícia, encarou as outras, surpresa. E perguntou: “Vem cá. Não é sopa como?” Deram informações mais detalhadas e precisas:
— Não pode nem ver mulher. Já deu em cima de todas as funcionárias da seção. Uma fera!
Lourdinha ainda resistiu, na sua ilimitada boa-fé. “Mas é certo isso?” Houve uma confirmação geral:
— Certíssimo! E uma das colegas, Arlete, mais petulante do que as outras, foi mais longe:
“Aposto o diabo como, na primeira oportunidade, ele dá em cima de você.”
Mais do que depressa, a garota trançou os dedos, numa figa preventiva. Disse:
“Eu, hein? A outra insistiu: “Quer apostar?” Quase ofendida, empinou o queixo:
— Mas eu sou noiva, o que é que há?
Surgiram os risinhos. Explicaram, então, que ele não fazia a menor discriminação de casadas, noivas, viúvas e desquitadas. Segundo Arlete, ele era um pouco dessa lógica patética, segundo a qual o que cai na rede é peixe. A rigor, seu Maciel só tinha uma predileção especial: as “novinhas”. Rodeando Lourdinha, as outras teimavam:
— Espera e verás!

O velho

Lourdinha ficou com a pulga atrás da orelha. Mas quando viu o chefe, com cabelos ralos e grisalhos, de óculos, uma aparência de sessenta anos bem-vividos, caiu das nuvens. E foi, correndo, reclamar da outra: “Ora, não amola! Um velho gagá!” Arlete debruçou-se sobre a máquina e repetiu: “Vai por mim; abre o olho!” 
Durante, os primeiros sete dias de serviço, Lourdinha teve, por exigências do serviço, uma série de aproximações com o chefe. Este, porém, justiça seja feita, foi de uma correção, de uma polidez, de uma cerimônia verdadeiramente exemplares. E era até engraçado vê-lo chamar de “dona” e “senhora”, apesar dos seus 20 anos. Jamais dissera uma palavra suspeita, jamais esboçara um gesto equívoco. No exercício de suas funções e durante o expediente, era o burocrata e nada mais. As colegas é que não se conformavam. Sempre que ela saía do gabinete, com pastas debaixo do braço, a crivavam de perguntas:
— Como é? Ele te deu em cima? Conta, conta!
Lourdinha era categórica:
— Vocês são de amargar, puxa! Deu em cima de quem? Que mania! — e reafirmava: — Me trata com o máximo respeito!
Um dia, porém, foi fazer uma consulta ao seu Maciel, quando este, pigarreando, perguntou: “Que idade tem a senhora, d. Lourdes?” Parecia uma curiosidade natural e platônica. Respondeu:
— Vinte.
Tirou os óculos, limpou a lente com um lenço fino:
— Sabe qual é a minha — repôs os óculos e continuou: — Vamos ver se você adivinha. Que idade eu pareço ter?
Balbuciou, perturbada: “Não sei, não senhor.” Ele, porém, cordial, animava:
“Pode dizer. Diz.” Sob a pressão do outro, arriscou: “Cinquenta e cinco?”
Seu Maciel riu, divertido; e retificou alegremente: “Errou!” E então, tocada pela cordialidade, pela confiança do chefe, quis saber: “Quantos?” Estufou o peito:
— Sessenta! Percebeu? Quer dizer, tenho 40 anos mais que a senhora. Podia ser seu pai! — e suspirando, acrescentou: — Já não dou mais no couro!
Ergueu-se, fez a volta da secretária e veio até onde estava a moça. Pousou a mão na sua cabeça. Em voz baixa, disse: “Não se esqueça nunca do seguinte: eu podia ser seu pai. Não podia, hein? Fala, meu anjo...” Confusa, balbuciou: “Podia.” Ele esfregou as mãos, numa satisfação profunda; pigarreou, concluindo:
— Pode ir! Pode ir!

O protetor

As amigas continuavam curiosas: “Deu-se alguma piada?” Respondia: “Nenhuma.” No dia seguinte, pela manhã, o boy veio chamar Lourdinha, a mando do seu Maciel. Pela primeira vez, ele a convidou: “Senta. Pode sentar.” E, então, com extrema naturalidade, indagou: “Você tem namorado?” Disse: “Sou noiva.” E ele:
“Ótimo! Ótimo!” Quis saber, em seguida, se o noivo ganhava bem. Quando soube que não, que tinha um salário de fome, suspirou, grave:
— Isso é que é mau! Isso é que é mau!
Estava sentado na cadeira giratória. Levantou-se e começou a andar, de um lado para outro, com as mãos nos bolsos. Parecia um conferencista. E foi dizendo uma porção de coisas, inclusive isto: “Quero ser teu protetor.” Prevenindo uma interpretação errada de suas palavras, explicou: “Posso te falar assim, pelo seguinte, sou um velho. Tenho uma filha da tua idade. E, contigo, é até engraçado: eu me sinto uma espécie de pai.”
Transformava a própria velhice num argumento invencível: “O velho tem suas vantagens. Primeiro: não ameaça ninguém.” Novamente, pousou a mão na cabeça da garota: “Sou uma ameaça pra você, um perigo?” Ele próprio daria a resposta terminante: evidentemente não. Com meus cabelos brancos, a única coisa que eu posso ser, no duro, é uma espécie de Papai Noel.” Estacou e, já agora, segurava a ponta do queixo de Lourdinha. Baixo, perguntou: “É ou não é?” Admitiu:
— É.
Arrependeu-se logo de ter concordado. Mas o fato é que o outro, com a ascendência dos anos e de hierarquia, com a lógica aparente dos argumentos tornava naturais as coisas mais incríveis. Houve um momento em que seu Maciel prendeu entre as mãos o rosto atônito de Lourdinha. Ela mal respirava, numa passividade de todo o ser. E tinha uns olhos fixos de hipnotizada. Quando saiu de lá, as coleguinhas a esperavam com o comentário:
— Olha que esse cara tem uma lábia tremenda. Com a conversa de que é velho, vai longe!

O cinema

Durante dois dias, não recebeu nenhum chamado do gabinete. Via o chefe, a distância, e de passagem. A princípio, respirou, feliz: “Graças a Deus!” Mas outras funcionárias entravam e saíam de lá. Menos ela. E isso foi, com o correr das horas, criando, no mais íntimo de si mesma, uma certa irritação. À tarde, quase à hora de fechar o expediente, seu Maciel veio ver um processo numa mesa próxima. E não teve um único olhar, uma única palavra, para ela. Sem tirar os olhos do trabalho, Lourdinha comentou, de si para si: “Que graça!” Nesse dia, saiu do emprego de mau humor. O noivo a aguardava, na esquina. Enquanto esperavam o ônibus, o rapaz foi advertindo: “Me contaram que teu chefe é um velho sem-vergonha. Se ele se engraçar pra teu lado, você me diz, que eu vou lá e sabe como é, parto-lhe a cara!”
Lourdinha, que não gostava de homem genioso, ralhou:
— Deixa de valentia, sim?
Na manhã seguinte, seu Maciel mandou chamá-la, logo cedo. Desta vez, foi mais direto ainda. Confessou: “Gostaria muito de ajudar, você, no seu enxoval, etc., etc.” E, sem desfitá-la, perguntou: “Quer ir a um cinema comigo?” E insistia:
“Um cineminha?” Durante um minuto, dois, foi incapaz de uma resposta: não estava indignada e... com esforço, balbuciou:
— Não vale a pena.
Seu Maciel, amargo, lembrou: “Olha que eu tenho uma filha da tua idade!” Mas, nessa tarde, cruzaram-se, acidentalmente, na rua, depois do expediente, os três: de um lado, Lourdinha e o noivo e do outro seu Maciel. Ora, o noivo de Lourdinha, forte, atlético, bonitão, era desses homens que viram a cabeça de qualquer mulher.
E, pela primeira vez seu Maciel teve a amargura da idade e sofreu, de uma maneira aguda e intolerável, a humilhação de ser velho. Havia entre seus cinquenta anos e a vitalidade do outro um contraste esmagador. Entrou, em casa à noite, numa tristeza irremediável. A mulher estranhou:
— Que cara sinistra é essa?
Explodiu: — Ora, não me aborrece você também!
A esposa, meio irritada, replicou, num tom equivalente: “Que cavalo!” E foi só. Por coincidência ou por autossugestão, acordou, no dia seguinte, com dores nas articulações. Ironizou: “Reumatismo da idade!” Entrou na repartição com uma dessas melancolias que arrasam os mais resistentes. Chamou um companheiro de trabalho, idoso como ele, e fez as confidências mais patéticas: “O negócio é o seguinte: o velho não tem vez, o velho nem devia existir.” O outro, impressionado com esse lamento, indagou: “Que bicho te mordeu?” Teve vergonha de entrar em maiores confidências; despistou: “Sou um palhaço muito grande.” Pois bem. Passou uns três dias, de cara amarrada, sem olhar para Lourdinha. E não lhe saía da cabeça a imagem do noivo juvenil, com seus ombros largos. Até que, um dia, estava sozinho, quando Lourdinha entra no seu gabinete e faz a pergunta: “Seu Maciel o senhor está zangado comigo?” Ergueu-se, pálido. Gaguejou: “Eu?” Continuou, sem desfitá-lo:
— O senhor nunca mais me chamou. Parece até, que está me evitando!
O velho arriou na cadeira giratória: “Estou velho, muito velho...” Teve ainda um desabafo brutal: “Não sou nada, nada, diante do teu noivo. Aquilo é que é homem!”
Então, aquela menina de 20 anos, fez a volta da mesa, numa espécie de fascinação. Apertou o rosto do chefe entre as mãos, beijou-o na boca, muitas vezes.


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