José Lino Souza Barros

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Um tempo sem kiwi e sem heróis

Do jornalista David Coimbra

06/08/2019 às 11:28
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Sou de um tempo sem kiwi. Não havia kiwi, não havia sushi, o pão era semolina de meio quilo, tudo era mais difícil naquela época. Também não havia internet, logo não havia e-mail ou Facebook, não havia nem celular e nós nem sequer tínhamos telefone fixo em casa. Como nos comunicávamos? Não sei. Como arranjávamos amigos e namoradas? Não faço a mais tísica ideia. Que mundo estranho era aquele sem kiwi.

Naquele tempo tão longe, de mim distante, os guris não sonhavam em ganhar iPad de Natal. Não, não, nossos anseios, basicamente, se resumiam a três presentes: uma bola de couro número 5, coisa cara. Uma bicicleta, coisa caríssima. Um autorama, coisa para nababo.

Uma vez ganhei uma bola de couro número 5, costurada a mão por algum presidiário, gomos pretos e brancos, uma lindeza, o único tipo de bola que deveria ser utilizado em quaisquer campeonatos do mundo para todo o sempre, amém. (...)

Autorama, não. Autorama nunca tive. Autorama era areia demais para o caminhãozinho financeiro da família. Mas bicicleta um dia ganhei. Foi um esforço conjunto de mãe, vô, madrinha e vó. Um mutirão. E que emoção. Era uma bicicleta sem marchas. Ninguém ganhava bicicleta com marcha num tempo sem kiwi. (...) 

Como o tempo é injusto com os homens. Fosse hoje, seríamos personagens de discurso na Câmara. Sim, porque, agora, neste tempo de kiwis, existe a crença de que andar de bicicleta muda o mundo, de que andar de bicicleta é fazer a Revolução. Quem poderia imaginar? Nenhuma daquelas duplas famosas, Marx & Engels, Lenin & Trotski, Fidel & Che, nenhum deles imaginaria que o capitalismo seria abalado a pedaladas. Hoje o lema é, mais amor, menos motor.

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