José Lino Souza Barros

Coluna do José Lino Souza Barros

Veja todas as colunas

A Vida Como Ela é: perdição

DE NELSON RODRIGUES

17/08/2019 às 03:10
Ouça na Íntegra
00:00 00:00

Chegou em casa e abriu o coração:
— Mamãe, a senhora sabe da última?
— Não!
Pôs a bolsa em cima da mesa, sentou-se na primeira cadeira disponível e suspirou:
— Imagine a senhora que defronte lá do escritório trabalha um rapaz.
— Já vi tudo!
Graziela confirmou, numa felicidade misturada de melancolia:
— Pois é, mamãe, adivinhou. Eu acho que estou gostando desse rapaz e...
Então, Dona Dulce, que acompanhava cinco novelas por dia e era sentimental como diabo, largou o pano de prato e a louça, e veio ouvir a filha, de perto. Perguntou:
— Como é o nome dele?
A menina confessou:
— Não sei.
— Ora, bolas! Não sabe como? Não é teu namorado?
Coçando a cabeça com um grampo, Graziela teve que explicar:
— Namorado coisa nenhuma! Nunca falou comigo, nem eu com ele. Por enquanto, não há nada, mamãe. Ele olha pra mim, eu pra ele e pronto. Só.
Desiludida, Dona. Dulce voltou à louça, que estava em cima da pia. Resmungava:
— Quer dizer que você gosta de um “cara” que não conhece. E vai ver que é algum sujeito casado. No mínimo!
Replicou otimista:
— Não tem cara de casado, não, mamãe. Aposto que é um solteiro!


Namorado

No dia seguinte, pela manhã, quando Graziela saiu do banheiro, Dona Dulce, que vinha passando, parou; e advertiu:
“Abra o olho, minha filha! Sabe o que é que está dando mais no momento? — e ela própria respondeu: — Menina solteira com homem casado. Uma vergonha!
Enfiando o vestido pela cabeça, Graziela até achou graça: “Que bobagem, mamãe!” 
Com 18 anos e bonitinha, conhecera alguns rapazes, mas sem gostar de nenhum. O primeiro homem que a impressionava era, justamente, aquele desconhecido que trabalhava defronte do seu escritório. Há 15 dias que se olhavam, de janela a janela. Mas não existia, até então, entre os dois, um vínculo. Não se tinham falado nunca, nem pelo telefone. Mas que delícia absoluta esse namoro sem palavras, esse romance sem frases, essa história só tecida de olhares. Coleguinhas de Graziela a cutucavam: “Telefona pra ele, sua boba!” Outras sugeriam um trote. Ela, porém, resistiu: “Não, senhora. Pra quê? Ele é que é homem. Ele é que deve telefonar e não eu.” 
Na saída, ia descontente com o bem-amado desconhecido. Comentava de si para si: “Um palhação!” Mas na porta estaca. O rapaz parecia esperar, no meio da calçada. E vinha ao seu encontro. Diante dela, inclinou-se:
— O meu nome é Osmar Braga. E ela, trêmula:
— O meu, Graziela.


O drama

Deixou-se levar numa espécie de embriaguez. Alguns paravam ao vê-los passar. E, de fato, era quase escandaloso o contraste físico: ele, grande, de passos firmes e largo, um ar de lutador e ela, miúda, de uma fragilidade que tornava patética sua graça de mulher. Pouco depois, sentavam-se num café. E foi então que sofreu o seu desencanto tremendo. O rapaz acabava de pousar a mão em cima da mesa. E aparecia, nítida, indiscutível, iindisfarcável, a aliança de casado. Experimentou um sofrimento tão agudo, que não conteve o lamento. “Que pena!” Ele não entendeu a princípio: “Por quê?” Ela indicou a aliança. Instintivamente, Osmar teve um gesto inútil: escondeu a mão.
Estiveram calados alguns momentos. Por fim, ele começou:
— Pois é, sou casado — e admitiu: — Nem eu nem você deveríamos estar aqui.
Quase chorando, ela apanhou a bolsa: “Vou-me embora.” Mas, o rapaz, que sonhara longa e apaixonadamente com aquele momento, perguntou: “Posso lhe pedir um favor?”
— Qual?
Hesitou, como se escolhesse as palavras:
— Eu sou um homem casado e você, uma menina de família. Portanto, não pode existir nada entre nós dois.
— Lógico.
Continuou:
— Este é o nosso primeiro e último encontro — pausa e fez o apelo: — Que tal se a gente fosse ao cinema, juntos, também pela primeira e última vez? Seria uma espécie de adeus, compreende?
Durante alguns momentos, Graziela lutou consigo mesma. Osmar insistia, baixo e ansioso: “Uma vez só. Uma vez não são todas.” Apertando o braço da garota, insistia: “Vamos?” Teve um fundo suspiro:
— Vamos.
Entraram num cinema, sem noção nenhuma, nenhuma, do programa. Graziela levava em si a sensação deliciosa e lancinante do pecado. Foram de uma doçura espantosa aquelas duas horas passadas no escuro, diante de uma tela que não viam, dizendo uma série de coisas, algumas das quais bobagens. Tinham a impressão de que se tinham gostado sempre, talvez em encarnações anteriores. Por fim, saíram.
Ele dizia, sóbrio e definitivo:
— Nunca mais falo contigo. Nunca mais. Foi esta a última vez.
Mas já então a menina, que era amorosíssima, teve uma desesperada coragem:
“E se eu quiser continuar?” Olharam-se com espanto, medo, pena. E ele, firme:
“Mesmo que você queira, eu não quero.” Balbuciou: “Por quê?” Foi quase brutal:
“Porque seria a tua desgraça.” Por fim, ele diria: “Vou te dar o último beijo.” Deixou-se beijar e retribuiu. Nos braços de Osmar, teve uma espécie de morte, de aniquilamento delicioso. Deixou-a, atônita, dizendo:
— Adeus!


Obsessão

Na manhã seguinte, ao chegar no escritório, pendurou-se no telefone. Mas Osmar foi de uma fria polidez: “Para seu próprio bem, eu não devo falar mais com você.” E repetia: “Você é uma menina de família e eu, um homem casado.”
Ela replicou: “Mas eu não me incomodo. Quero você. O resto não interessa.” Por último, Osmar alegou uma razão sentimental que lhe parecia definitiva: “Tenho uma irmã de sua idade. E não farei com você o que não quero que façam com minha 
irmã.” Graziela não esperava por essa resistência, explodiu:
— Você é homem ou não é homem!? Ora, bolas!
Sem perder a calma, ele se despediu: “Com licença, mas tenho o que fazer.”
Durante uns três dias, conteve-se. No quarto dia, porém, estava humilde à sua espera.
Novamente, ele foi muito claro: “Não pode ser. Se fosse outra mulher, qualquer outra, eu toparia. Mas você, não. Você é quase uma criança. Eu penso em minha irmã e...”
Humilhou-se; e repetia, chorando: “Eu sou mulher, sim.” Osmar, grave e triste, com uma pena doida, explicava: “Deus me livre que você se perdesse por minha causa.”
Em voz baixa, e já de olhos enxutos, perguntou: “Você não quer que eu me perca?”
Ele, pensando na irmã, disse, com apaixonada sinceridade: “Nunca!” Graziela exaltou-se, de novo:
— Olhe aqui, seu cretino: você será o culpado, o único culpado, de tudo que me acontecer! Palhação!


O culpado

Passou-se o tempo. Ela não o procurara, nunca mais. E, de vez em quando, em pleno trabalho, ele caía em ardente meditação. Doía-lhe, então, na carne da alma, uma brusca e aguda nostalgia daquela menina, que tinha uns olhos de anjo. Abriu-se com vários amigos. Estes o ridicularizavam: “Bobeaste, foste burro. Devia ter aproveitado!” Replicava: “Que o quê! Fiz eu muito bem. Sabe lá o que é um remorso?” Nunca mais, porém, o abandonou a melancolia daquele amor frustrado. Até que, um ano depois, uns amigos o convidaram para uma farra noturna. Foi, com os outros, para uma dessas casas de prostituição. Estava bebendo num grupo, com uma loura no colo, quando vê descendo da escada, de braço com um cliente eventual, uma mulher que... Era ela, talvez mais bonita e menos menina. Estava vestida como as outras, decotada como as outras, num vestido colante, de cetim roxo. Vira-o, e, depois da surpresa, aproximava-se. Ele afastou brutalmente a loura. Ergueu-se, face a face com Graziela, balbuciou: “Você? Aqui?” A garota cruzou os braços como se tivesse frio; disse, sem desfitá-lo:
— O culpado é você. Por tua causa, virei o que sou — e, como se estraçalhasse as palavras nos dentes: — Não fui sua, agora sou de todo o mundo! Bem feito!
Sem compreender aquela vingança, olhou-a longamente, com os olhos marejados. E, súbito, diante daqueles ombros nus, do vestido colante, ele experimentou uma brusca e mortal vontade de amor. Quis beijá-la e... Mas Graziela se desprendeu, possessa: “Qualquer um, menos você!” E repetia: “Você, nunca!”
Osmar sentiu que a perdera novamente e para sempre. Então, ali mesmo, na frente de todos, caiu de joelhos. Com o rosto mergulhado nas duas mãos, soluçou alto como uma criança.


SONOPLASTIA: RONALD ARAÚJO

Escreva seu comentário

Preencha seus dados

ou

    #ItatiaiaNasRedes

    RadioItatiaia

    'Eu estou levando minha revolta para um lado de injustiça, eu preciso de uma resposta. Eu guardei tudo no quarto do bebê. Essa dor parece que não vai passar', completa.

    Acessar Link

    RadioItatiaia

    O caso foi revelado em primeira mão pela rádio Itatiaia e repercute nacionalmente.

    Acessar Link