José Lino Souza Barros

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O perfume

De Nelson Rodrigues

20/07/2019 às 11:43
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Quando completaram 15 dias de namoro, Áurea fez aniversário. Na véspera. Carlos consultou Deus e todo mundo. Explicava:
— Minha garota faz anos amanhã. Que presente eu devo dar a ela?
— Depende.
Insistia:
— Dá uma opinião, um palpite. Mulher gosta de quê?
— Sei lá!
Recorreu a umas dez pessoas. Mas nenhuma das sugestões o satisfez. Acabou decidindo:
— Eu próprio vou escolher e pronto. No dia seguinte, apareceu com um embrulhinho amarrado com uma fitinha dourada. Áurea quis adivinhar:
— Perfume?
— Acertou.
A menina agradeceu:
— Você é um anjo!


O perfume

Deixou passar dois, três, quatro dias. No quinto, pigarreia e indaga:
— Você não está usando o perfume? O perfume que eu dei?
— Não.
Áurea esclareceu: não estava usando, nem ia usar. Surpreso e descontente, Carlos coçava a cabeça:
— Ué!
E ela:
— Vou guardar como lembrança, percebeu? Está lá na mesinha de cabeceira.
Passou. Mas quando se despedia, Carlos prometeu:
— Olha: vou comprar outro para você, o.k.?
Ganhava pouco, mas fez o sacrifício. No dia seguinte, surgia com o mesmo embrulhinho. Áurea, que era doida por presentes, ainda brincou:
— Você acaba abrindo falência.
Ele não resistiu à vaidade de dizer a marca e o preço:
— É Gucci. Sabe quanto custou? Trezentos reais. E me faz um favor: vê se desta vez usa esse negócio, sim?
Prometeu que sim, que usaria o segundo frasco. Só que quando se encontraram teve que admitir:
“Ah, meu amor. Não tive coragem!” Ao lado, o rapaz não conseguia disfarçar a própria irritação. Chegou a gaguejar: “Ora, bolas!”
E ela:
— Mas vem cá, você não acha bobagem gastar um perfume tão caro?
Protestou:
— Em absoluto! Bobagem por quê? Não, senhora! E vou dizer mais: não há, no mundo, homem que não goste de mulher cheirosa. Ou você pensa que basta tomar banho? Não basta, não. O perfume é indispensável!
— Que exagero!
Mas ele insistiu, polemizou. Andando de um lado para outro, argumentava:
— Quer saber de uma coisa? — pausa e com certa ênfase conclui: — Muitos amores morrem pelo olfato!
Espantada, perguntou:
— Como?
“Presta atenção: nós estamos num país tropical, onde se transpira pra caramba. Muito bem. E nada mais natural que as pessoas cheirem mal. É ou não é? Eu te pergunto: é possível amar uma mulher que cheira azedo?”
Com o vidrinho de perfume na mão, Áurea não sabia o que pensar. Balbuciou, semiconvencida:
— Que graça!


Mania

A partir de então, sempre que se encontrava com a menina, Carlos tratava de apurar de uma maneira disfarçada ou ostensiva, se Áurea tinha posto o perfume ou não. Às vezes, ela se esquecia. E ele, descontente, zangado, reclamava: “Aposto os tubos como não cololcou o perfume!”
Era obrigada a admitir o esquecimento. 
Com surda irritação, tratava de doutriná-la:
— A criatura humana cheira mal, percebeu?
Ela protestava:
— Menos eu! Eu não!
Despistava:
— Não personalizemos, meu anjo. Falo de uma maneira geral. Escuta: a pele do homem ou da mulher exala um odor meio chato. Até eu, que sou marmanjo sem graça, barbadão hediondo, até eu me perfumo.
Áurea ouviu calada. Mas não compreendia essa obsessão. Por vezes, ensaiava uns protestos. Dizia, então, que há coisas mais importantes que o perfume, como o caráter, a alma, a religião, etc., etc. Esta resistência enfurecia Carlos. Acabava explodindo:
— O primeiro dever da mulher é cheirar bem. Qual grande vantagem da grã-fina sobre as outras mulheres? É que ela usa perfumes bacanérrimos. Só.
Afinal, Áurea submeteu-se. Gostava muitíssimo do rapaz, queria o casamento. Todas as tardes, antes de ir ao seu encontro, passava perfume nos braços, no pescoço e na ponta da orelha. O rapaz andou perguntando: “Você toma banho de chuveiro ou de banheira?” Resposta: “De chuveiro.” Ele teve, então, a ideia:
— Faz o seguinte: de agora em diante toma banho de banheira e põe perfume na água. Este é o macete!
Disse que sim. Mas era da boca para fora. No fundo, a insistência do namorado a humilhava. Queixava-se em casa:
— Quem vê, diz que eu sou uma gambá!


A esposa

Fora dócil, como namorada e como noiva. Mas uma amiga, aliás, sabidíssima, recomendou: “Primeiro casa. E, depois, abre o jogo.” Assim fez. Casou-se. Ainda foi macia durante as duas semanas da lua de mel. Mas no vigésimo dia de casamento, houve, entre os dois, o primeiro incidente. Há três dias que ela, de propósito, a título de provocação, não usava nada, nem mesmo a simples água-de-colônia. Ele fez a observação que lhe pareceu cabível. Áurea pulou: “Sabe que você está me enchendo com essa mania de perfume?” Perguntou:
— Isso é mania, é tara ou que diabo é? Normal não pode ser!
— Ora! Está aí para dar chilique?
Exaltada, ela cheirou as próprias mãos, dizendo: “Graças a Deus eu tomo banho.” Intimidado com sua veemência, procurou convencê-la com bons modos:
“Meu anjo, o que há é o seguinte: você transpira como todo mundo, não é? O suor seca no corpo, na roupa.” O fato é que levaram nessa discussão boba uns quarenta minutos. Por último, envenenada, Áurea impôs:
— Você tem que gostar do cheiro de minha própria pele. Essa história de perfume é fricote! E eu não topo, absolutamente!


Angústia

Contou à amiga o episódio. Esta a felicitou: “Dá-lhe duro! Dá-lhe duro!” E acompletou: “Marido, sabe como é: a gente dá a mão e ele quer o pé!” E a verdade é que Áurea se mostrou irredutível. Carlos pedia, implorava: “Que custa você fazer isso? É algum pecado? Algum crime?” E Áurea, num ressentimento infantil: “Acho humilhante!” Argumentava: “Basta o banho que eu tomo!” Fora de si, ele negava:
— Não basta o cheiro neutro; eu quero perfume e só entendo mulher perfumada!
Não há dúvida que não só se tratava de uma simples questão de gosto, mas de uma obsessão estranhíssima. De vez em quando, fazia a insinuação, dava a indireta:
“Olha que muitos amores acabam pelo olfato!” E quando olhava, na mesinha os vidros de perfume intatos, tomava-se de uma melancolia atroz, sentia-se um miserável. Até que, uma noite, na hora do jantar, Áurea sente, no ar, de uma maneira intensa, o perfume que era a mania do marido. Espanta-se e, súbito, fixa a empregada, que ia e vinha trazendo e levando os pratos. Não se sabe que espécie de suspeita, de presságio tocou o seu espírito. O certo é que se inclinou, para o marido que, no momento, parecia insolitamente feliz. Diz: “Vou despedir esta empregada!” E a moça vinha chegando, jeitosa e adolescente. Carlos saltou. Como um possesso, os lábios trêmulos, berrava:
— Ela põe o perfume que você não quis usar. E eu vou atrás dela, ouviu?
E saiu, de braço, com a perfumadíssima empregada.

SONOPLASTIA: RONALD ARAÚJO

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