José Lino Souza Barros

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Amor demais 

13/04/2019 às 12:01
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Ouça a crônica de Nelson Rodrigues na voz de José Lino Souza Barros!

Foi um deus nos acuda, quando chegou. A mãe veio, lá de dentro, interrogá-lo:
— É verdade, meu filho?
— O quê?
E ela:
— Que você está namorando a Zizi?
Desconversou:
— Por quê?
— Sim ou não?
Afrouxou a gravata, sentou-se e admitiu: “É verdade, sim.” A mãe, que dramatizava tudo, pôs as mãos na cabeça: “Você é maluco? Onde já se viu?” E deu uma tremenda lição de moral no filho:
— Você não sabe que a família de Zizi não presta, que é ordinária, não vale nada?
O rapaz ergueu-se:
— Ora, mamãe. O que é que tem a família de Zizi com o peixe? A família que se dane, que vá plantar batatas!
E a velha, profética: “Esta mulher vai te fazer de palhaço. Toma nota!” Antes de sair, chorando, completou:
— Ela quer o teu dinheiro! Só o teu dinheiro!

Apaixonado

Dia a dia, seu interesse era maior. Houve quem formulasse o prognóstico: “Acaba casando.” 
Um dia, porém, a mãe o convoca para uma conversa particular. Na defensiva, ele pergunta:
— Que é que há, mamãe?
A velha baixou a voz:
— Meu filho, eu compreendo que um rapaz solteiro tenha suas distrações. É a lei da vida, paciência. E faz a sugestão vil: — Por que você que tem dinheiro, que é rico, que pode, enfim, não dá uns presentes à tua garota e... 
Silêncio. A mãe continua, excitada:
— Família influi muito. Você se esquece das irmãs?
De fato, Zizi tinha duas irmãs que eram dois autênticos casos de polícia. Casadas, com filhos, faziam uma vida de escândalo e dissolução. Não satisfeita, a santa senhora continuou:
— Pague, meu filho! Compre os carinhos dessa garota, as vantagens, percebeu?
Ergueu-se, lívido:
— Mamãe, a senhora está muito enganada! Enganadíssima!
Pausa e acrescenta, firme:
— A senhora não tem o direito de fazer este juízo de sua futura nora!
— Nora?
Confirmou, patético: “Eu vou me casar com Zizi, de qualquer maneira, nem que o mundo venha abaixo!”

Zizi

A primeira reação frenética da velha foi gritar: “Você é de maior idade e eu não posso impedir. Mas corto as relações contigo!” Foi sóbrio mas irredutível:
— Perfeitamente. E seja o que Deus quiser.
Quarenta e oito horas depois, no entanto, d. Zenaide perseguia o filho, em todas as direções, com recados histéricos. Quando ele apareceu, houve uma cena terrível. Atirou-se nos seus braços soluçando; e só dizia: “Traz tua noiva! Traz tua noiva!” No dia seguinte, Zizi comparecia à casa da futura sogra. Dona Zenaide foi esplêndida de cordialidade. Beijou-a na testa: “Minha filha! Minha filha!” Mais tarde, numa satisfação profunda, Décio manifestou nestes termos o seu reconhecimento:
— Minha mãe, a senhora é uma santa!

Matrimônio

Casaram-se. Depois da lua de mel, Dona Zenaide atracou-se com o filho: 
— Que tal se eu morasse com vocês?
Ele riu, sem jeito:
— Sogra e nora, juntas, mamãe?
— Por que não? Zizi é como se fosse minha filha!
O rapaz ainda relutou: “Não dá certo! Não é negócio!” Ela, porém, usou da chantagem sentimental infalível: “Sofro do coração e qualquer dia destes morro!”
Impressionado, o rapaz foi falar com Zizi. A garota achou graça: “Tua mãe quer me controlar.”
Mas acabou concordando: “Pra mim, tanto faz.” Justiça se lhe faça: Dona Zenaide foi, desde o primeiro dia, uma sogra exemplar; ou mais do que isso: “mãe”. Se teve um defeito, foi o de exagerar nas suas expansões. Até que, um dia, pôs as mãos no ombro da nora; e disse: “Gosto tanto de você, como do meu filho.” Dois dias depois, retifica: “Gosto mais de você que de meu filho.” E como sentisse que Zizi estava surpresa ou incrédula, anunciou: “Quero que Deus me cegue se minto!”
Talvez fosse o íntimo propósito de Dona Zenaide conquistar a confiança absoluta da nora. Pedia mesmo: “Quero que me conte tudo, tudinho. Quero que não tenha segredos para mim.” E prosseguiu:
— Meu anjo, se um dia você trair meu filho, eu ficarei contigo, sob minha palavra de honra!

O drama

De repente, Dona Zenaide começa a fazer uma série de observações. Primeiro, que Zizi saía todas as tardes; segundo, que se enfeitava muito para sair; terceiro, que andava esquisita, uns olhos de sonho e umas abstrações súbitas. Pôs a nora em confissão: “Fala comigo como se eu fosse tua mãe!” E Zizi: “Não há nada, absolutamente nada!” Disfarçava: “Eu é que não estou me sentindo bem. Mas isso passa.” Uma tarde, porém, quando Zizi chegou, a sogra a esperava. Chamou-a: “Vamos conversar lá dentro.” Trancaram-se e a velha foi sóbria e direta:
“Sei de tudo.” Zizi recuou, espantada:
— De tudo como? De tudo o quê?
E a outra:
— Mandei te acompanhar. Sei que você se encontra com um sujeito assim, assim, que foi seu namorado. Quer o nome? Galvão.
Negou, selvagem:
— Nunca! É mentira! É mentira!
Rápida, a sogra a segurou pelos pulsos: “Você se encontra no hotel tal e...”
Zizi baixou a cabeça e a outra viu que a nora chorava. Largou-a, então. Sem excitação, numa euforia contida, foi dizendo:
— Eu sabia! Eu tinha certeza! E desejei isto! — pausa e elevou a voz: — Agora, rua! Eu te expulso da minha casa! Rua!

O filho

Zizi saiu quase com a roupa do corpo. D. Zenaide, que a levou até a porta, trincou a palavra nos dentes: “Sua isso!” Quando, porém, o filho chegou e não encontrou a mulher, quase pôs a casa abaixo. A mãe tentou ser enérgica. Arrastou-o para o escritório; baixou a voz: “Tem um amante!” Desprendeu-se nos braços maternos, num repelão feroz: “Ou a senhora pensa que eu não sabia?” Caiu de joelhos, mergulhou o rosto nas duas mãos e soluçou como um menino. Atônita, ela dizia: “Sabia? Você sabia?” Teve uma contração no estômago: “Sabia e deixava? Então você não é homem, não é nada!” O rapaz, desvairado, levantou-se:
— Vou buscar minha mulher! D. Zenaide levantou-se:
— Escolha, meu filho: ou eu ou tua mulher, escolhe! Encarou-a: — Ela.

O encontro

Encontraram-se, marido e mulher, dois dias depois, numa confeitaria. Ela, sem pintura nenhuma, triste e altiva. Ele, desgrenhado, um olhar fixo e ardente, a barba crescida. Décio começou: “Vamos passar uma esponja no passado. Faz de conta que não houve nada. E você volta.” Ergueu para ele um olhar sem medo: — Impossível. Gosto de outro e jamais gostei de você. Entre nós está tudo acabado.
Sentindo que a perdia, tomou-se de verdadeiro pavor. Fez, ali, uma cena hedionda:
“Eu sou rico. Tenho dinheiro.” E com os olhos marejados, acrescentou: “Tudo é seu.” Ela foi irredutível. Dizia que não, não e não. Deixou-o, petrificado, diante de uma garrafa vazia de guaraná.

Amor

Durante dois dias, ele esteve a alguns passos do suicídio. Por fim, ocorreu-lhe uma solução alucinada. Soube que o amante era um ex-investigador, expulso da polícia e que, segundo o informante: “tomava dinheiro de mulher”. E pensou: “Ótimo!” Décio procurou o homem. Antes de qualquer palavra, pôs na frente do outro um cheque de duzentos mil reais. O outro recebeu um impacto tremendo; gaguejou: “Eu tenho que fazer o quê?” E Décio:
— Embarcar para Paris, já, de avião e sozinho. O outro lambeu os beiços antes de dizer: “Topo!” De fato, o malandro partiu uma semana depois. Mais 72 horas e Zizi voltava ao lar. O marido chorava, abraçado a ela. Sem ligar para a traição, apenas repetia: — Eu te amo, te amo, te amo!

SONOPLASTIA: RONALD ARAÚJO 

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