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O fim da privacidade

29/07/2019 às 12:18
O fim da privacidade

Há mais de dez anos fui alertado por um amigo: “Cuidado com a falta de freios que você tem, especialmente pelo jeito brincalhão de conversar porque estamos todos grampeados”. Como assim? Perguntei. Ele, então, explicou que jornalistas, promotores, policiais e, claro, políticos eram permanentemente monitorados, por escutas clandestinas, pelas mais diversas razões e por motivos os mais variados, quase sempre com característica criminosa. Fiquei encucado; afinal, minutos antes recebera ligação de um deputado, cuja história tem aberta ligação com o jogo do bicho e me dirigi a ele com uma saudação nada convencional: Fala contraventor!”. Ao que ele reagiu com uma mais zombaria: “Tem um dinheiro lá pra você”. Era só exagero verbal, mas imaginem isso dentro de um inquérito em que um de nós esteja sob suspeição.

Meses depois do diálogo inadequado e pueril tomei conhecimento de gravações que deixava um colega de profissão em maus lençóis por conversa nada republicana com delegado criminoso. 

Desde então procuro segurar brincadeiras e adjetivos nas ligações e abrevio ainda mais as conversas ao telefone – que, aliás, nunca foram meu forte. Esse escândalo que envolve as conversas de autoridades da Lava Jato, mais as escutas em telefones de autoridades não deixam mais dúvidas. Estamos sujeitos a bisbilhotarem toda e qualquer ação, seja no celular ou em seus aplicativos. Sinceramente, isso não me apavora do ponto de vista pessoal, de que possa ser incriminado amanhã ou depois, mas enquanto cidadão vem um sentimento de derrota, de cerco fechado pelo mundo cada vez mais feroz e brutal. 

É muito triste saber que o juiz Moro e o promotor Deltan, nossos heróis na luta contra a corrupção, escolhiam seus alvos e se sujeitavam a encontros e palestras que não combinam com a rotina de um operador do Direito. Mas o pior é ter a certeza de que os criminosos, sejam eles mais inteligentes ou elaborados, sejam moleques delinquentes e ficha suja como os hackers que estão presos, nos têm nas mãos. E amanhã podem bater na nossa porta dizendo que, em determinado momento de relaxe, elogiamos a beleza de uma colega de trabalho, que está documentado e se não houver uma boa recompensa aquilo será usado como assédio, traição, adultério... Aonde vamos parar?

Impressionante como George Orwell previu tudo em 1984.

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